Como explicar a derrota do Brasil a uma criança?


Pessoal, Segue abaixo um excelente texto escrito por nosso amigo e mentor, Nuno Cobra Jr. Nesse momento de grande tristeza e sentimento de humilhação que o povo brasileiro está passando, vale muito apena ler o texto abaixo e refletir sobre a situação atual do nosso país e das nossas vidas. Boa Leitura! Rodrigo e Priscila

Como explicar a derrota do Brasil a uma criança?

por Nuno Cobra Jr. Depois da catarse ás avessas vivida no jogo do Brasil, fiquei zapeando nas TV e internet para ver como a mídia  e as pessoas reagiram a esta tragédia histórica. O goleiro da seleção disse que é difícil “explicar o inexplicável” e esta expressão  era repetida pela mídia , que corria vertiginosamente ( assim como a seleção alemã, diga-se) para achar os devidos culpados. Em um programa da Fátima Bernardes feito com crianças, o discurso era: se nem nós que somos adultos sabemos explicar o que aconteceu, como vamos explicar isto a uma criança? Bom, na realidade é muito simples entender de forma clara o que ocorreu.

Vamos começar pelo início, entendendo o que se passou em campo. A minha experiência de 30 anos vividos dentro de esportes de competição, seja treinando atletas de diversas modalidade ou competindo,  trouxe alguns aprendizados. O episódio vivido pela seleção tem nome: Emotional Nervous Breakdown , e ocorre de forma bastante comum  em todos os esportes. Eu mesmo já vivi isto diversas vezes e sei bem qual é a sensação e as reações neurológicas ativadas durante este episódio.

Em competições de tênis, devido a pressão psicológica e emocional , eu já perdi de lavada de tenistas de qualidade técnica bastante inferior. A defesa do time do Brasil viveu o que popularmente chamamos de apagão. Quando estamos sobre forte estresse psicológico e emocional durante uma competição, um lance negativo repentino nos coloca em estado de torpor, a mente se desliga e nosso poder de concentração despenca até o ponto de total inexistência. 

Quem já viveu isto sabe muito bem como é, para quem nunca viveu parece algo inexplicável.  É uma sensação horrível, ficamos totalmente aturdidos e perplexos em uma espécie de estado de choque. A partida começa a virar um pesadelo e tudo parece irreal. É como se nossa alma e nosso cérebro tivessem abandonado o nosso corpo, que insiste em continuar  na partida , dançando sem rumo, perdido de um lado ao outro. Os críticos dizem que apenas um apagão não explica o porquê o Brasil jogou mal o jogo inteiro, mas eles desconhecem que é impossível voltar ao jogo após um trauma desta magnitude, apagão não é desculpa é realidade.

Muito bem, a primeira lição a ensinar a uma criança seria que o que o correu com o Brasil não significa vergonha ou humilhação, mas sim um episódio que pode ser vivido por qualquer equipe em um ambiente de competição. Nós devemos agradecer aos alemães, este jogo foi um choque de realidade, uma chacoalhada que expõe exatamente quem somos.

Confiamos que apenas criatividade, improviso  e “jeitinho” garantem o sucesso. O fundo do poço chegou, estamos em declínio, ninguém vive das glórias do passado. Podemos ensinar que a derrota é uma grande chance de olharmos para nós mesmos e de buscar aperfeiçoar tudo que nos falta. Sem muito trabalho, concentração, foco e seriedade, não vamos alcançar nossos objetivos. Taí uma lição bem germânica muito útil a nossos pequenos.

A Alemanha depois de ser derrotada nas eliminatórias da Eurocopa de 2000 , investiu mais de 1US$ bilhão  no futebol nos últimos 14 anos, com um projeto sério e bem estruturado. Leia esta matéria de 2013 e você vai entender que o buraco é mais embaixo: Alemanha, o país do futebol: http://abr.ai/1tkMkkr ).

A disputa do 3°lugar foi uma continuação do jogo anterior. Time desencontrado, inseguro, com medo de errar, exemplo clássico do quanto o emocional pesa na performance de um time. A gente grita, sofre, xinga os jogadores, mas no fundo foi melhor assim, sem redenção. Quem sabe agora a lei que permite auditorar a CBF é aprovada no congresso. Agora só nos resta ter orgulho da nossa saúde, da nossa educação,dos nosso politicos….

O que dizer quando um politico da estirpe de Marin esta a frente da CBF ?, será que agora usar o Felipão como escudo é valido ? Os especialistas técnicos de plantão vão dizer varias coisas: que viemos para copa sem nenhum preparo cuidadoso e efetivo, com um time jovem e sem experiências em copas, nem tampouco tivemos um bom suporte profissional para lidar com a pressão de jogar em casa; que o nosso centroavante parecia um poste e estava visivelmente fora de timing de jogo; que não tínhamos meio-campo, e que estávamos sendo liderados por um técnico em total decadência. E,guardados os devidos exageros, tudo isso tem um fundo de realidade. Porém, não deixo de achar  triste este tratamento dado pela mídia:  se dá tudo certo elogiam e apoiam, mas quando dá errado jogam pedras e querem enforcar os culpados.

Cadê a solidariedade? Cadê o  “tamos juntos” do dia anterior? Errar é humano, ou errar é passível de enforcamento em praça pública? Não existe vida inteligente na televisão? Como esperamos educar e consolar uma nação assim? Não existem culpados, os culpados somos nós mesmos, é a nação inteira. Este evento é apenas um reflexo de como somos. Se usamos esta lição de forma positiva, podemos evoluir, podemos buscar o que nos falta. Se arranjamos um culpado fingimos que não é com a gente e continua tudo igual, os problemas continuam a se aprofundar.

Outra lição importante é aprender a perder de cabeça erguida. Podemos apoiar e ser solidários com aqueles que perdem e principalmente com nós mesmos quando perdemos. Errar é uma consequência natural de quem tenta, quanto mais tentamos mais rápido aprendemos. Se temos medo de errar ficamos estagnados e não evoluímos.

Podemos também ensinar a uma criança o respeito. Não precisamos desabafar a nossa raiva e frustrações nas outras pessoas. O Fred estava fora de forma, mas é um centroavante incrível,  uma falha não pode apagar o brilho de uma vida inteira. O Felipão está em decadência  mas já nos deu um título mundial.

Quando a mídia colabora para tornar o assunto mais raso, colocando ainda mais lenha na fogueira e pedindo a cabeça dos culpados, deixa a população a Deus dará. Futebol no Brasil é coisa séria, mexe com nossa autoestima, machuca a alma. Se não damos informação, subsídios e consolo a população, ela surta, quebra, agride aos outros e a si mesma. Alias quem vai cuidar de nossos jogadores agora? Nesta seleção existem talentos enormes, como Oscar, Bernard, Paulinho, Dante, David Luiz, Ramirez, Willian e companhia. Será que a CBF vai contratar terapeutas para cuidar deste trauma enorme vivido por estes meninos? Ou agora que tudo acabou e eles não renderam o esperado é um pé na bunda e cada um por si? Se entendemos que o time lutou bravamente e sucumbiu no campo de batalha apenas na semifinal, através de um golpe típico do esporte que é a pane emocional, e que o time é apenas um reflexo de nossas fragilidades, não deveríamos reconhecer o esforço de nossos atletas? Este é mais um grande exemplo que deixamos de dar a nossas crianças,  não cuidamos e não temos respeito por nossos guerreiros, por aqueles que representam a nossa pátria em campo.

A Dilma não vai recebê-los em Brasília, por que agora este assunto não rende mais votos, pelo contrário. Quem será que terá a sabedoria e integridade de acolher estes meninos? Será que é esperar demais que de uma hora para outra o Brasil vire uma Inglaterra e a rainha Dilma encontre nossos guerreiros oferecendo seu consolo. Será que isso é possível ? Se conseguíssemos ensinar a nossas crianças a tirar proveito de todas estas lições, num futuro não tão distante,  isto não seria apenas uma improvável cena de um conto de fadas.

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5 Respostas para “Como explicar a derrota do Brasil a uma criança?

  1. Sou fã de Nuno Cobra, seu comentário em relação a derrota do Brasil tem sido muito útil, pois muitos brasileiros realmente não sabem como lidar com as perdas na vida e a grande mídia então, só sabe atiçar as pessoas a alimentar ainda mais o seu desequilíbrio emocional, como você falou, as crianças não aprendem na escola a lidar com o seu emocional e na vida adulta vivem dependentes de coisas fúteis para serem feliz.

    Por: Germana F. Maranhão.

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